domingo, 7 de fevereiro de 2010

Estrada (Eras tu , quando eu era mais eu)


Sozinho, percorro a estrada que era minha e que te dei
Um dia, por medo, fui andando a pouco e pouco e me afastei
Do porto de abrigo do abraço que me davas e o calor
um abraço, sentido, que parava o mundo e me sarava a dor
Da vida
e de tudo
mas agora vou tombando para o fundo
do poço, vazio, da ausencia desse abraço que era o teu
e triste, caminho
tambem meu sorriso sem o teu morreu
e no escuro eu me afundo
ecoando num gemido profundo
já que a acorda, a que sempre
me agarrei para vencer a corrente
da tristeza, da loucura
que me habita e só contigo está segura
já não pende, não há nada
levaste-a contigo junto com a estrada
estou sem rumo,cansado
eu vivo no presente do passado
equilibras,
o meu eu
que criaste e que sem ti morreu

Esconde-te em mim

Quando chegares à noite e não conseguires dormir
Quando acordares de manhã e te faltarem as forças para aguentar mais um dia
Quando chegares a meio do dia já sem fôlego para mais metade
Quando nada parecer fazer sentido para ti
Quando te sentires desamparada e só
Quando achares, por algum motivo, que lutar mais não vale a pena
Quando estiveres a um passo de te entregar á negridão dos "monstros" no teu armário
Quando as lágrimas te escorrerem do rosto, ainda que contra a tua vontade
Quando toda a tua casca de de segurança e confiança começar a estalar
Quando perante uma encruzilhada te faltar a coragem de escolher esquerda ou direita e te deitares no meio
Quando precisares de uma mão que te impeça de chegar ao fundo do poço
Quando as unicas certezas que tiveres forem as dúvidas cujas respostas desconheces
Quando a luz ao fundo do túnel te parecer longe demais

Faz de mim porto de abrigo, constrói aí o teu ninho e deixa-te estar a repousar

domingo, 31 de janeiro de 2010

Teoria da Des-evolução da Espécie!

Se Darwin estava certo então eu, como todo o ser humano, descendo remotamente de um qualquer animal, provavelmente um macaco, que se aprimorou e desenvolveu até a um certo grau de "perfeição" que desembocou nesta "superior" espécie a que julgo pertencer, o homem.
Contudo não deixo de achar imperativo interrogar-me se realmente o nome dado à teoria de Darwin será a mais correcta. É certo que o termo "evolução" sugere, por definição, uma ideia de progresso e de melhoria.Contudo, em vários aspectos, não sei por vezes se não adoraria permanecer agarrado ao galho ao invés de ter que suportar nos ombros o peso de ser homem.
Ser homem é hoje mais do que andar erecto(salvo seja!) e vestir peles de animais arcaicamente caçados emitindo sons mais próximos ao dos animais do que aos dos actuais humanóides. Ser homem hoje é ser mais animal do que o era o homem quando homem era ainda macaco.
Ser homem hoje é pertencer à espécie que se extermina pela cor dos olhos. Ser homem hoje é carregar a culpa do holocausto, é viver num lar quente e suar frio e suor do homem sujo de carvão pela cor da pele. É entoar em silêncio os cânticos do fanatismo religioso e da obsessão ideológica da política. É desintegrar-se inteiro pela onda nuclear originada no Japão.É esperar sentado no trabalho pela chegada á ponta da fila do desemprego originada pelas imposições do mercado. É dormir confortável temendo o surgimento de uma bala perdida destinada ao vizinho num bairro social.É viver, morrendo lentamente, no escuro do abandono a que se vota o homem velho já "desnecessário" ao progresso da sociedade que não para na histeria do consumo.Ser homem hoje é olhar para os numeros de mortos diários por esta e aquela guerras e dar mais um gole no café fruto do trabalho escravo do homem menos afortunado e permanecer imperturbado.
Ser homem hoje é ser robot, não é, nem de perto nem de longe, ser homem e nem tão pouco é ser animal.Ser homem hoje é ser autómato, é não ser homem.
Já é hora da espécie "des-evoluir" evoluindo para um estado realmente humano.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Esperança

Espero que ao esperar por ti
não desespere ao ver tudo o que perdi
contudo,
Espero, se enfim te alcançar,
não perecer sôfrego com aquilo que ganhar


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Se já tiver passado então culpa-me por não o ter agarrado com a força com que agarro a imagem dos teus olhos junto a mim

Surge um outro sol e dá o mote a um novo dia. Como de costume, porque sempre fora assim e nada fazia prever que fosse este ser "O dia" em que deixaria de o ser, levanta-se e admira-se remelento no espelho. Dirige-se cambaleante para o chuveiro onde permanece por aproximadamente 10 minutos, sai, veste-se e volta a admirar-se no espelho já com um ar mais composto. Abre a cortina e olha o dia, não tão diferente de ontem como gostaria, e é assaltado por um pensamento, um daqueles pensamentos que o assaltam dezenas de vezes ao dia...mas o de hoje, quando nada o previa, era diferente de todos os outros...hoje questionou-se "e se fosse ter a certeza?" e por uma vez,pela primeira vez, assim fez.
Banhou-se em colónia, colocou o cachecol de que ela tanto gosta, pegou o seu mp3 para companhia de viagem, ligou ao seu amigo de sempre e disse "é hoje".Meteu-se no carro, parou na florista para comprar aquela pequena flor rosa cuja simplicidade lhe desponta tão preenchido sorriso e seguiu viagem.No caminho pensava no que lhe diria quando chegasse. Imaginou dezenas de possiveis dialogos, de hipoteticas reacçoes, riu e chorou só imaginando. Lembrou-se das várias vezes em que quis dizer-lhe e não o fez por "não ser o momento certo", lembrou-se das dezenas de conversas que teve com todos os amigos, conhecidos e desconhecidos em que todos lhe diziam "vai lá!faz o que tens a fazer, é melhor a certeza de um não do que a duvida de um talvez! E é, sem duvida, impagável a certeza de um "sim"!Vai, não esperes pelo momento perfeito, é certo que não existe e de que é a desculpa dos fracos que não conseguem fazer de um momento normal um momento inesquecível!Não sejas esse fraco. Está nas tuas mãos fazer de uma tarde negra de chuva a tarde inesquecivel que resultou em três dias da constipação mais feliz das vossas vidas!Está nas tuas mãos fazer de um dia O dia, está nas tuas mãos, não deixes escapar" E lembrando-se disto ganhava confiança para prosseguir. Pensava no amigo de sempre, no mesmo amigo de sempre, que tantas vezes o aturou horas ao telefone a repetir a mesma história já gasta, as mesmas duvidas já cansadas e as mesmas mágoas já choradas respondendo apenas "vai lá, sê homenzinho e vai lá". E por isto, também por isto, hoje ele ia.Hoje era o primeiro dia do resto da sua vida, e com sorte, do resto da vida dela.Se não era ao menos uma história nova para moer ao telefone com o amigo de sempre!
Recordava agora os inúmeros jantares, incontáveis lanches preparados por um e por outro, passeios à beira mar de manhã, à tarde e à noite, as longas conversas sobre isto e aquilo e o resto que o mundo tem para conversar, espontâneas gargalhadas, tímidos sorrisos e olhares atravessados por diversas salas nos mais diversos eventos, aconchegantes abraços, passos de dança coordenadamente errados e discussões infantis.Pensava, em suma, em milhares de momentos certos que deixara passar esperanto pela momento mais certo que nunca existiu por estar sempre presente não se distinguindo dos outros!
Pensava nela e em todos os defeitos que aprendeu a ver como qualidades. No seu sorriso feliz, no seu sorriso "maroto", no olhar de assustada em voz tremida, no seu abraço mimalho, no seu semblante confiante que abriga todas as fragilidades e carências de menina, no seu lado manipulador e mesmo mau, no seu trato infantil e inocente, na determinação e força com que agarra os sonhos e ambições, na falta de jeito para dançar (e aqui sorriu) mas também na instabilidade,na arrogância, na frieza...em todo o conjunto que faz dela tão ela e dele tão dela, mesmo sem querer.E enquanto pensava nela e a via mentalmente, encantando-se e perdendo-se em tudo o que nela vê, fecha os olhos por um instante ouvindo a musica que fizera para ela.Num instante, que sendo um instante, foi o bastante para sentir o carro sair da estrada e precipitar-se de uma ribanceira abaixo.
Ficou assim sem saber o que aconteceria se tivesse realmente chegado lá e lhe tivesse dito tudo o que tinha pensado na viagem, ficou sem saber se teria lugar algum dos diálogos que imaginara, se seria recebido com alguma das reacções que previra.Ficou, contudo com uma certeza: que o momento mais certo de todos os momentos certos não iria mais chegar.

Espero acordar amanhã com a determinação deste rapaz almejando, porém, que o momento certo possa ainda chegar para nós.