Sentado num banco transpiro para um piano toda a alma que me habita....sou um só com as suas teclas...relembro o desaparecer do teu sorriso num melancolico suceder de acordes tristes seguidos de um fernezim de notas soltas com sentido, pelo menos para mim...perco agora a consciencia dos meus gestos, os meus dedos flutuam livremente, e toco...com o mesmo sentimento, com a mesma paixao, com a mesma liberdade, com a mesma ausencia de dominio de mim mesmo com que toquei em ti um dia...eu nao a controlo...mas a melodia é perfeita...tambem contigo era assim...perfeito..espontaneo,intenso,sempre perfeito...Toco ja sem ler a partitura...sei-a de cor...tambem a ti sabia embora o teu corpo fosse uma eterna novidade que descobria sempre com o mesmo entusiasmo. parece que ainda o sinto, tudo nele...o seu odor,o paladar a ti que me ficava gravado nos labios ja secos de tanto o beijar...o piano toca agora mais alto..as suas notas repetem-se a um ritmo que nao consigo controlar e enquanto o ouço o meu coraçao acelera com ele e eu fecho os olhos... cresce em mim a ansiedade falta me a força mas nao paro...toco....toco porque te sinto em cada nota que me invade e me faz faltar o ar...cada nota é uma gota de suor que absorvo do teu corpo com a ponta dos meus dedos...estou cansado...soa agora uma melodia calma...relaxante...terna...e tu continuas aqui...acaricio agora o piano como quem com carinho desliza sobre a face de alguem uma mao leve e suave como a brisa...acaricio-o assim como te acariciava a ti..quando quietos esqueciamos o mundo e viamos o mar e o sol que parecia brilhar so para nos naquele momento....a melodia entristece e nao evito que uma lagrima me escorra e humedeça uma qualquer tecla do piano... ja nao transpiro para o piano a alma que em mim habita choro agora a saudade e tristeza que deixaste quando foste, quando te fiz ir...talvez seja bom que tenhas ido pude finalmente provar o gosto de tudo sem ti...é amargo... e só o é porque conseguiste tornar-te na doçura dos momentos que vivia...vivo-os sem ti e são amargos... pude experimentar o toque de um abraço que nao o teu...é aspero...vazio....pude experimentar o sabor de um outro beijo....sem sentido...
posso tentar iludir-me com uma mascara que uso que so me engana a mim...ou pelo menos a ti nao te engana...nao a ti que sempre olhaste para dentro de mim como se nao houvesse nada entre mim e ti que me escondesse...para ti era transparente e tu vias-me....percebo quando me olhas com esse olhar que me diz tanto...que ainda o sou...transparente... ainda consegues ver-me de dentro para fora sentir me de dentro para fora...consegues abraçar-me antes que começe a chorar... consegues calar-me antes que começe a dizer o que nao quero dizer...consegues sorrir-me antes de falar, ves se estou feliz, consegues perguntar-me o que se passa tambem antes de falar, sabes se estou triste...sabes me como ninguem...conheces me como ninguem...conheces me como qualquer pessoa teria medo de conhecer alguem...conheces me como eu... conheces me melhor.... o piano ja nao toca.... mas tu permaneces... amanha uma nova melodia vai nascer mas tu seras sempre a sua partitura...sempre ate eu acabar de exprimir todas as sensaçoes que suscitas em mim...nunca irei conseguir...vais ser sempre o meu piano... quanto mais toco mais conheço o que es para mim...nao quero parar de tocar...quero saber tudo ate concluir que ha em cada pedaçinho de mim um pouquinho de ti...compoes-me...compoes o meu melhor eu...o eu que foi criado por ti o eu que nao existe sem ti...o eu que compões....como quem compõe uma melodia harmoniosa,pacifica,tranquila....compõe-me e faz me ecoar nas paredes de uma qualquer sala de madeiras refletidas e cobertas pela luz dourada de um por do sol....Hoje a melodia e serena...hoje eu sou sereno...hoje deste-me a mao e o mundo parou...
domingo, 18 de janeiro de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
História da arte: a pintura; A monalisa que pintei para te ver sorrir para mim, uma última vez...
A primeira vez que te vi, vi-te, cada traço preciso e exacto, anatómicamente perfeito que formava a figura graciosa e detalhada que eras tu.Cada sombra que parecia esconder alguma mínima imperfeição ao mesmo tempo que deixava no ar a possibilidade de ocultar mais um reboscado e precioso pormenor que te compõe nessa angustiante representação de perfeição humana renascentista em que te vi. Vi-te assim, numa harmonia realista científica em que cada gesto, cada expressão, cada luz, cada brilho, cada sombra, cada cor, me transmitia uma emoção nova e te punha mais perto do Olimpo e mais longe de mim. Eras assim, uma imagem perfeitamente desenhada e clara. Pelo detalhe com que te pintaste pareceu-me ver-te como na realidade és, sem artifícios para te esconder, mas com tal detalhe que me deixou sedento de explorar cada traço em que te formas para conhecer mais até à exaustão.Quis conhecer cada luz que me ofuscava e te enchia de destaque numa tela repleta de um jogo de vida e morte, claridade e obscurantismo, euforia e angústia que me despertava os sentidos enquanto me afogava na sensação de completude e sacieade. Cada olhar que parecia ter sempre mais a dizer e me fazia deambular num misto de ternura e sofrimento doentio que me impedia de desviar o olhar desse teu enigma permanente com que vias o mundo e me cegavas aos poucos sem saber.
Cego pela grandiosidade em que te via fui apreciando um gradual deformar da imagem inicial que construi apercebendo-me da nítida ilusão que todo esse jogo de luz produziu nos meus ingénuos olhos que já te viam, então, sob a forma impressionista de uma luminosa aparência de felicidade constituida por pinceladas soltas, ao contário dos firmes e perfeitos traços com que nasceste tal qual Vénus. Toda aquela ciência e harmonia realista pareciam-me agora não mais do que uma ilusão provocada por um exuberante cenário de luz e cor forte sem o qual não serias nada mais do que um conjunto de pinceladas imprecisas. Contudo, consegui ainda assim, reconhecer certa beleza, por muito que os teus contornos tivessem perdido precisão, á forma que descrevias, mais vaga mas com detalhe suficiente para te manteres encantadora e fascinante para mim, talvez por guardar ainda lembrança do tempo em que te julgava ver em todo o teu detalhe e explendor.
Porém, quando tentava reconstruir e precisar a incerteza das pinceladas em que te tornaras, notei que da minha reconstrução nasceu uma imagem ainda mais desconstruida e afastada daquela em que outrora me perdi em prazeres e euforia. A tua forma havia-se perdido e eras não mais do que uma colorida dança de expressões da qual resultava uma angustiante e destrutiva sensação de desprazer patente no teu semblante que se alastrava a mim e me consumia num ácido que sentia queimar-me do mais intímo interior de mim até à superficie com que tocava visualmente na corrosiva imagem em que morta dançavas com um olhar que implorava sair da tela ao mesmo tempo que se deleitava com toda a negridão sua envolvente e com o meu olhar perdido de panico e desilusão perante tão macabra demonstração de ti.
Abstração...foi tudo o que restou depois da perturbação causada pelo teu verdadeiro ser...incapaz de perceber como uma imagem renascentista tão harmoniosa pode perder gradualmente todo esse encanto transformando-se numa abominável manifestação de amargura dor e sofrimento absolutamente destrutiva para mim deixei de reconhecer em ti qualquer forma vendo apenas uma abstração, um conjunto de elementos a compor uma tela incompreensível, sem emoção, sentimento ou forma.
Hoje vejo-te talvez como uma demonstração surrealista...reconheço-te uma forma descabida, incompreensível mas que não me fere ou satisfaz....uma obra sem emoção, pelo menos para mim.
Assim assisti à perfeita deformação da perfeição da tua forma, e da minha, pelo menos como a conhecia quando percorria sofregamente a perfeição que se revelou falsa e destrutiva da grande obra que pintei e que vi deteriorar arrastada pela podridão da modelo que escolhi,infelizmente...
domingo, 11 de janeiro de 2009
só mais um conto contado pela personagem que não morreu no fim por não chegar até lá!
Olhar para o espelho e reconhecer-me é hoje quase tão dificil como era olhar para ti e perceber quem eras á sombra das tuas constantes mudanças de personagem nessa historia que criaste com apenas uma personagem principal e personagens secundárias, como eu, que fatalmente morriam no fim para deleite teu.Não fosses tu essa princesa caprichosa que vive na ansia de ver mais um principe(encantado durante não mais do que o tempo que a ti te parecer conveniente) falhar ao tentar salvar-te das garras da "bruxa má" que na realidade és tu própria sob essa aparência ingénua e pura de sorriso aberto e olha encantador!Eu fui um desses príncipes que encantado, não por ter encanto mas por me encantares, me rasguei, desfiz, abri em sangue que escorria do peito onde te trazia, a ti ou aquela que julgava seres tu, dei o melhor de mim mas não chegou para satisfazer o pior de ti com que me julgaste e apagaste do conto(que eu queria de fadas) que escreves nesse teu jeito manipulador de marionetas animadas.Para mim a história acabou, para ti foi só mais uma página ainda longe do "e viveram felizes para sempre", só mais um "era uma vez"....
Como te cheguei a dizer a minha vida é uma tragi-comédia em que me equilibro risonho na corda bamba sem rede perante uma assustada plateia confiante na minha falsa aparencia de controlo.Foi também assim que caí da corda julgando ingénuamente ter-te como rede quando eras apenas mais uma espectadora passiva(e não das assustadas) que me via arriscar balançando, entediada pela falta de emoção no facto de não cair. Pois é...desequilibraste-me e por ti cai mesmo...
Hoje sinto saudades de uma pessoa cuja existencia inexplicavel e inprevisivelmente cessou.A pessoa que eu julgava que eras, iludido pela mascara que usavas.
Eras tu quando eu era mais eu, embora não saiba ao certo quem es na realidade...
Como te cheguei a dizer a minha vida é uma tragi-comédia em que me equilibro risonho na corda bamba sem rede perante uma assustada plateia confiante na minha falsa aparencia de controlo.Foi também assim que caí da corda julgando ingénuamente ter-te como rede quando eras apenas mais uma espectadora passiva(e não das assustadas) que me via arriscar balançando, entediada pela falta de emoção no facto de não cair. Pois é...desequilibraste-me e por ti cai mesmo...
Hoje sinto saudades de uma pessoa cuja existencia inexplicavel e inprevisivelmente cessou.A pessoa que eu julgava que eras, iludido pela mascara que usavas.
Eras tu quando eu era mais eu, embora não saiba ao certo quem es na realidade...
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