A primeira vez que te vi, vi-te, cada traço preciso e exacto, anatómicamente perfeito que formava a figura graciosa e detalhada que eras tu.Cada sombra que parecia esconder alguma mínima imperfeição ao mesmo tempo que deixava no ar a possibilidade de ocultar mais um reboscado e precioso pormenor que te compõe nessa angustiante representação de perfeição humana renascentista em que te vi. Vi-te assim, numa harmonia realista científica em que cada gesto, cada expressão, cada luz, cada brilho, cada sombra, cada cor, me transmitia uma emoção nova e te punha mais perto do Olimpo e mais longe de mim. Eras assim, uma imagem perfeitamente desenhada e clara. Pelo detalhe com que te pintaste pareceu-me ver-te como na realidade és, sem artifícios para te esconder, mas com tal detalhe que me deixou sedento de explorar cada traço em que te formas para conhecer mais até à exaustão.Quis conhecer cada luz que me ofuscava e te enchia de destaque numa tela repleta de um jogo de vida e morte, claridade e obscurantismo, euforia e angústia que me despertava os sentidos enquanto me afogava na sensação de completude e sacieade. Cada olhar que parecia ter sempre mais a dizer e me fazia deambular num misto de ternura e sofrimento doentio que me impedia de desviar o olhar desse teu enigma permanente com que vias o mundo e me cegavas aos poucos sem saber.
Cego pela grandiosidade em que te via fui apreciando um gradual deformar da imagem inicial que construi apercebendo-me da nítida ilusão que todo esse jogo de luz produziu nos meus ingénuos olhos que já te viam, então, sob a forma impressionista de uma luminosa aparência de felicidade constituida por pinceladas soltas, ao contário dos firmes e perfeitos traços com que nasceste tal qual Vénus. Toda aquela ciência e harmonia realista pareciam-me agora não mais do que uma ilusão provocada por um exuberante cenário de luz e cor forte sem o qual não serias nada mais do que um conjunto de pinceladas imprecisas. Contudo, consegui ainda assim, reconhecer certa beleza, por muito que os teus contornos tivessem perdido precisão, á forma que descrevias, mais vaga mas com detalhe suficiente para te manteres encantadora e fascinante para mim, talvez por guardar ainda lembrança do tempo em que te julgava ver em todo o teu detalhe e explendor.
Porém, quando tentava reconstruir e precisar a incerteza das pinceladas em que te tornaras, notei que da minha reconstrução nasceu uma imagem ainda mais desconstruida e afastada daquela em que outrora me perdi em prazeres e euforia. A tua forma havia-se perdido e eras não mais do que uma colorida dança de expressões da qual resultava uma angustiante e destrutiva sensação de desprazer patente no teu semblante que se alastrava a mim e me consumia num ácido que sentia queimar-me do mais intímo interior de mim até à superficie com que tocava visualmente na corrosiva imagem em que morta dançavas com um olhar que implorava sair da tela ao mesmo tempo que se deleitava com toda a negridão sua envolvente e com o meu olhar perdido de panico e desilusão perante tão macabra demonstração de ti.
Abstração...foi tudo o que restou depois da perturbação causada pelo teu verdadeiro ser...incapaz de perceber como uma imagem renascentista tão harmoniosa pode perder gradualmente todo esse encanto transformando-se numa abominável manifestação de amargura dor e sofrimento absolutamente destrutiva para mim deixei de reconhecer em ti qualquer forma vendo apenas uma abstração, um conjunto de elementos a compor uma tela incompreensível, sem emoção, sentimento ou forma.
Hoje vejo-te talvez como uma demonstração surrealista...reconheço-te uma forma descabida, incompreensível mas que não me fere ou satisfaz....uma obra sem emoção, pelo menos para mim.
Assim assisti à perfeita deformação da perfeição da tua forma, e da minha, pelo menos como a conhecia quando percorria sofregamente a perfeição que se revelou falsa e destrutiva da grande obra que pintei e que vi deteriorar arrastada pela podridão da modelo que escolhi,infelizmente...

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